Crescer ou parecer que está crescendo?
Reflexões semanais de Mulheres para Mulheres.


















Eu ando com a sensação de que a gente desaprendeu a viver as coisas sem tentar traduzir tudo na mesma hora. É como se toda experiência precisasse vir com uma legenda, uma interpretação, uma moral da história.
Outro dia, vivi uma daquelas cenas cotidianas, simples mas bonitas. Antes mesmo de absorver o momento inteiro, percebi minha cabeça já tentando organizar aquilo em palavras. E não era nem pra postar. Era pior: eu estava tentando transformar aquilo numa narrativa interna. “O que isso diz sobre mim? Em que tipo de pessoa isso me transforma?”
É bizarro perceber que até os momentos mais íntimos ganharam uma segunda vida dentro da nossa cabeça: a versão que a gente vai contar depois. Existe um abismo entre viver uma coisa e já pensar em como ela vai soar quando virar história.
A gente não só compartilha mais a vida, a gente passou a se observar vivendo o tempo todo. Como se tivesse um espelho invisível na nossa frente o dia inteiro.
E não é só culpa das redes sociais. Isso vem também dessa nossa obsessão contemporânea por propósito, por inteligência emocional, por parecer alguém que é profundamente tocado pela própria existência. Hoje, parece que tem um baita valor simbólico em ser a pessoa que “aprende, elabora e cresce”.
Crescer virou uma linguagem. A fase difícil que vem com uma reflexão super sofisticada, o recomeço inspirador, a vulnerabilidade perfeitamente embalada e compreendida enquanto ainda tá acontecendo.
Às vezes, eu sinto que a gente tá vivendo menos a experiência e mais a percepção de nós mesmos dentro dela. Como se a vida estivesse sempre exigindo coerência narrativa.
Só que, na real, crescer de verdade quase nunca tem cara de crescimento enquanto tá acontecendo. É um silêncio esquisito, uma sensação de que você não cabe mais em alguns lugares, mas ainda não achou os novos. É perder a vontade de fazer certas coisas sem ganhar nenhuma outra vontade no lugar.
O crescimento verdadeiro não é bonito, não parece profundo e definitivamente não tem trilha sonora. Às vezes, ele é tão silencioso que a gente só percebe meses depois, quando repara que uma situação que antes acabaria com o nosso dia já não mexe mais com a gente.
Mas claro, isso não rende narrativa imediata. E talvez seja por isso que rola tanta ansiedade em torno dessa tal “evolução pessoal”. Não basta mais crescer, a gente precisa se ver crescendo. Precisa dar nome, forma, empacotar num conceito. Como se viver algo sem tirar um significado profundo daquilo fosse um desperdício.
Sinceramente, eu tô cansada disso. Cansada dessa necessidade involuntária de transformar qualquer sentimento em conceito, de fazer de cada fase uma identidade nova, de pegar as nossas dores e tentar espremer uma “versão mais interessante de nós mesmos”. É exaustivo demais ficar se assistindo existir o tempo todo.
Ultimamente, eu tenho sentido uma inveja boa de quem vive sem essa autoconsciência performática. Gente que simplesmente passa pelas coisas antes de tentar interpretar o que elas significam. Tem uma liberdade absurda em não precisar transformar tudo em evidência de que você tá evoluindo.
Talvez amadurecer seja exatamente isso: parar de tentar fazer a vida parecer significativa enquanto ela ainda tá rolando. Aceitar que algumas experiências não vieram pra ensinar nada agora. Que algumas mudanças acontecem no escuro, e que nem todo sentimento precisa virar um aprendizado sofisticado.
Amadurecer talvez seja deixar algumas partes da vida existirem sem plateia, inclusive sem a nossa própria. E o crescimento mais real de todos deve ser justamente aquele que a gente ainda não sabe explicar. O que não virou texto, não virou lição e não foi transformado numa versão bonita da gente. Só a vida acontecendo…..
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