No episódio que abre a quinta temporada do ELLAs Podcast, a ortopedista que virou empresária e mentora conta por que decidiu cedo, por que cuida do CPF antes do CNPJ e como enche a agenda sem anúncio. E o que isso tem a ver com qualquer mulher que gere um negócio sozinha.
O Brasil fechou 2025 com 635,7 mil médicos. Em 2004 eram 13.820 vagas de graduação por ano. Em 2024, 48.491. A projeção da Demografia Médica (USP/AMB/Ministério da Saúde) é passar de 1,15 milhão de profissionais em 2035.
Vagas de graduação em medicina por ano 3,5×
Em 20 anos, a oferta de vagas mais que triplicou.
20042024
Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP/AMB/Ministério da Saúde)
Pela primeira vez na história, as mulheres são maioria: 50,9% dos médicos ativos. Em 2010, eram 41%. Nas faculdades, 61,8% dos estudantes de medicina já são mulheres. A medicina se feminizou. As condições dentro dela, ainda não.
Participação feminina na medicina brasileira
A virada já aconteceu nas faculdades e acabou de acontecer na profissão.
Médicos ativos, 202550,9%
Estudantes de medicina, 202561,8%
Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025
A Dra. Jordana viu esse cenário de dentro de uma sala de cirurgia. Ortopedista formada em universidade federal, com especialização em cirurgia de mão e microcirurgia, ela estava no auge técnico da carreira em 2019. E insatisfeita por dois motivos: dinheiro e tempo.
Foi essa conversa que abriu a quinta temporada do ELLAs Podcast, apresentado por Flavia Del Valle e Fernanda Hattori.
A decisão veio antes da pandemia
Jordana resume o problema em uma frase: o paciente que tem convênio quer ser atendido pelo convênio. Ela não critica. Diz que todo mundo faz o mesmo com o próprio plano.
A conclusão foi estratégica. Brigar com o sistema não funciona. O caminho era mudar de posição dentro dele. Concluiu uma pós-graduação em medicina esportiva e nutrologia, começou a atuar nessas áreas e montou um consultório 100% particular.
A quarentena de 2020 acelerou o que já estava decidido. Cirurgias eletivas pararam. A procura por saúde, bem-estar e longevidade cresceu.
“Ponto de inflexão total.”Dra. Jordana, sobre 2020
A única mulher na sala
Um dado que não aparece no currículo: na ortopedia, Jordana foi a única mulher do grupo em vários momentos, no Rio Grande do Sul e depois em São Paulo. Conta que fazia o trabalho de três, quatro, cinco pessoas para ter o mesmo reconhecimento de um colega homem.
O caso dela não é isolado. A ortopedia tem 92% de homens no Brasil. Das 55 especialidades médicas reconhecidas, mulheres são maioria em apenas 20. Cirurgia cardiovascular, 88,8% de homens. Neurocirurgia, mesma proporção. A medicina é feminina nas estatísticas gerais, mas as especialidades cirúrgicas continuam sendo clube masculino.
Quem ocupa as especialidades cirúrgicas
Proporção de homens e mulheres entre especialistas.
HomensMulheres
Fonte: Demografia Médica 2025, via bip Insights
E a conta chega no salário. Médicos homens recebem em média R$26.138. Médicas, R$19.865. Diferença de 24%, segundo o Panorama Financeiro do Médico (Afya, 2023). Na faixa dos 41 a 50 anos, a remuneração média das médicas equivale a 65% da dos homens. A diferença persiste mesmo ajustando por especialidade e carga horária.
Remuneração média mensal −24%
Mesma profissão, contracheques diferentes.
Na faixa de 41 a 50 anos, para cada R$ 100 pagos a um médico, uma médica recebeR$ 65
Fontes: Panorama Financeiro do Médico 2023 (Afya); Portal Afya, com dados da Demografia Médica
Jordana não usou esses números no episódio. Ela contou a versão vivida. Mas os dados confirmam o que ela sentiu: trabalhar mais, entregar mais e receber menos.
Gestão de tempo aprendida na quadra
A lógica empresarial apareceu antes da medicina. Filha de uma família com renda limitada, Jordana pagava a escola particular com bolsa integral do vôlei. Jogava em três categorias, competia aos fins de semana e só tinha a aula para aprender.
Dali veio o hábito que ela mantém até hoje: ler uma vez, prestar atenção uma vez, executar rápido. Também veio a ideia de troca justa. Primeiro você entrega, depois recebe.
O médico como primeiro vendedor
Como mentora de médicos, Jordana diz que a primeira barreira é tomar a decisão. As objeções se repetem: não sei vender, não tenho secretária, não tenho time, não tenho espaço.
A resposta dela é dura. Sucesso e fracasso do consultório são do médico. Quem gera valor dentro da consulta é ele, e a negociação médica trata do que precisa ser feito pelo paciente. A secretária não tem essa credibilidade.
O que separa os mentorados que avançam dos que travam, segundo ela, são duas coisas: mudança de mentalidade e execução.
“Quanto mais rápido tu executa, já é muito dinheiro entrando na conta.”Dra. Jordana
CPF antes do CNPJ
A rotina dela é parte do argumento. Só depois de cuidar de si começa o expediente como médica.
O dia da Dra. Jordana
Três horas para o CPF antes da primeira consulta.
- 21hVai dormir
- 4hAcorda
- 5hCorre ou treina
- até 7hLê, faz reuniões ou cuida de si
- depoisComeça o expediente como médica
O raciocínio tem duas partes. A primeira é coerência: o médico que manda o paciente dormir, treinar e comer bem precisa fazer o mesmo, porque o primeiro produto que ele vende é a própria imagem. A segunda é desempenho: cabeça descansada enxerga oportunidades que cabeça exausta deixa passar.
Ela ensina os mentorados a definir quantas horas vão trabalhar por dia antes de definir quanto querem faturar. Para Jordana, o burnout começa quando a pessoa se perde do próprio CPF.
Quem adoece mais
Saúde mental na medicina e no trabalho, por gênero.
2 em cada 3 médicos com transtorno mental no Brasil são mulheres. Médicas têm risco de suicídio 47% maior do que mulheres fora da área de saúde.
71,6% dos casos de burnout registrados no país afetam mulheres. A faixa de 35 a 49 anos concentra os diagnósticos.
Fontes: Pesquisa Afya (2024); Medscape, via bip Insights; estudo epidemiológico de burnout no Brasil 2014–2024 (RBMT / Acervo Mais)
Quando Jordana fala em cuidar do CPF antes do CNPJ, está falando de algo que os números mostram com clareza: quem não cuida de si adoece, e mulheres adoecem mais porque carregam mais.
Time treinado vem antes do paciente encantado
O paciente vê a recepção antes de ver o médico. Por isso Jordana faz treinamentos e reuniões semanais, revisa agenda, estoque, produtos e serviços do mês.
A frase dela sobre time é direta: antes de o colaborador “não ser capaz”, foi o médico que não foi capaz de treinar. Ninguém fez faculdade para ser a secretária daquele consultório específico.
Reter paciente custa menos do que conquistar um novo. A experiência do time é o que segura esse paciente por anos.
Networking orgânico: uma hora por dia, sem alvo fixo
Jordana não usa tráfego pago. A agenda cresce por relacionamento e indicação. Ela reserva tempo diário para estar em ambientes e conversas que ainda não têm objetivo definido.
A outra frente são parcerias. Ela leva seu conteúdo para a base de clientes de outras empresas e eventos. Ganha visibilidade sem pagar mídia.
A hora que parece perdida
O médico costuma resistir porque vê a hora livre como faturamento perdido. Na conversa, as apresentadoras e a convidada chegaram ao mesmo ponto: essa hora constrói time, rede e marca com retorno de médio e longo prazo.
O preço pago pelas mulheres que avançaram
A pergunta sobre o momento mais difícil levou a conversa para fora do consultório. Jordana descreve a cobrança de ser médica, empresária, mãe, atleta e cuidar da aparência, tudo ao mesmo tempo.
O que as médicas relatam
Percentual de médicas que dizem já ter vivido cada situação.
Discriminação de gênero por parte de pacientes38,5%
Assédio de colegas mais velhos23%
Fonte: Sociedade Brasileira de Reumatologia, via bip Insights
A dupla jornada (profissional e doméstica) comprime o tempo e amplifica a culpa, porque o sistema pede escolhas que os homens na mesma posição raramente precisam fazer.
Para Jordana, as mulheres mudaram rápido demais para que os arranjos dentro de casa acompanhassem. O custo aparece nos relacionamentos. Equilibrar essa conta é, na leitura dela, o assunto que mais pesa na vida das pacientes.
O que o ELLAs ouviu (e o que isso tem a ver com quem não é médica)
A história da Jordana é sobre medicina. As perguntas que ela levanta servem para qualquer mulher que gere um negócio.
Em 2025, mulheres abriram mais de 2 milhões de micro e pequenas empresas no Brasil, recorde da série histórica.
2 mi+empresas abertas por mulheres em 2025, recorde histórico
42%de todos os novos negócios do país
58,3%das empreendedoras são chefes do domicílio
67,6%não recebem nenhum complemento de renda
Renda média mensal dessas empreendedoras: R$ 2.400. Fontes: Sebrae; Rede Mulher Empreendedora, Perfil das Empreendedoras 2025.
Três perguntas do episódio que valem para qualquer fundadora
Você cobra o que vale ou o que o mercado tolera?
Jordana saiu do convênio porque o convênio não pagava o que o serviço dela valia. Muitas fundadoras enfrentam a mesma conta: subprecificação crônica porque “ainda estou começando” ou “meu público não pode pagar mais”. O preço é problema resolvido multiplicado por resultado entregue.
Quem vende na sua empresa?
Jordana diz que o médico é o primeiro vendedor. A fundadora de uma agência, de um escritório, de uma consultoria também é. Delegar a venda antes de dominar a venda é abrir mão do controle sobre o próprio faturamento.
Quanto tempo do seu dia é seu?
A rotina das 4h da manhã pode parecer extrema, mas o princípio é simples: se você não reserva tempo para si antes de começar o expediente, o expediente consome tudo. Duas em cada três profissionais de saúde com transtorno mental são mulheres. Fora da saúde, os números são parecidos. A fundadora que não cuida do próprio CPF compromete o CNPJ.
A T5 do ELLAs é sobre decisão. Jordana é a primeira convidada porque a decisão dela veio antes de ter certeza. Veio antes da pandemia, antes da mentoria, antes de qualquer estrutura. Veio quando ela olhou para a carreira que tinha e entendeu que não era a carreira que queria.
Nem toda médica deve virar empresária. Jordana diz isso no episódio, e é o trecho mais honesto: forçar empreendedorismo gera mais insatisfação e mais burnout. O ponto de partida é autoconhecimento, e a resposta pode mudar com a fase da vida.
Para quem decide, ela aponta:
Execução rápidaPreço justoTime treinadoRede de longo prazo
Sem atalho. Sem tráfego pago. Sem pedir permissão.
Assista ao episódio completo
47 minutos sobre carreira médica, mercado de longevidade, gestão de time e o custo real de crescer sendo mulher.
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Fontes dos dados
| Dado | Fonte |
| 635,7 mil médicos em 2025 | Medicina S/A, com base na Demografia Médica 2025 |
| 13.820 vagas (2004) e 48.491 vagas (2024) | Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP/AMB/Ministério da Saúde) |
| Projeção de 1,15 milhão em 2035 | Demografia Médica 2025 |
| 50,9% dos médicos ativos são mulheres | Demografia Médica 2025, confirmado por Correio Braziliense, Metrópoles e Portal FMB |
| 61,8% dos estudantes de medicina são mulheres | Demografia Médica 2025 |
| Ortopedia 92% homens, cirurgia cardiovascular 88,8% | Demografia Médica 2025, via bip Insights |
| Gap salarial de 24%: homens R$ 26.138, mulheres R$ 19.865 | Panorama Financeiro do Médico 2023 (Afya), citado por Medicina S/A e bip Insights |
| Na faixa de 41 a 50 anos, mulheres ganham 65% do salário masculino | Portal Afya, com dados da Demografia Médica |
| 2 em cada 3 médicos com transtorno mental são mulheres | Pesquisa Afya, 2024 |
| Médicas: risco de suicídio 47% maior que mulheres fora da saúde | Medscape, citado por bip Insights |
| 71,6% dos casos de burnout afetam mulheres | Estudo epidemiológico de burnout no Brasil 2014–2024 (RBMT / Acervo Mais) |
| Burnout: 1.760 casos (2023) para 6.985 (2025) | ANAMT, com dados do INSS |
| 38,5% das médicas relatam discriminação de gênero por pacientes | Sociedade Brasileira de Reumatologia, via bip Insights |
| 2+ milhões de empresas abertas por mulheres em 2025 (recorde) | Sebrae / Agência Sebrae |
| 42% do total de novos negócios são de mulheres | Sebrae, via O Tempo e Seu Dinheiro |
| 58,3% das empreendedoras são chefes de domicílio | Rede Mulher Empreendedora, Perfil das Empreendedoras 2025 |
| 67,6% não recebem complemento de renda | Rede Mulher Empreendedora |
| Renda média mensal de R$ 2.400 | Rede Mulher Empreendedora |
Produção Horus Creatory · ELLAs Podcast T5